Com mama ou sem mama? (O que precisa saber sobre reconstrução mamária)

Com mama ou sem mama? (O que precisa saber sobre reconstrução mamária)

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Parece ridícula esta pergunta, afinal as mulheres têm mama, faz parte da sua natureza, é um dos principais símbolos da feminilidade. Contudo, muitas são as portuguesas que se deparam com esta pergunta, quando lhes bate à porta o mais assustador visitante: o cancro.

O cancro da mama é um dos que regista maior incidência em Portugal: de acordo com a Liga Portuguesa Contra o Cancro, surgem 6000 novos casos por ano – 11 por dia! – e atingem maioritariamente a mulher (apenas um em cada 100 casos atinge o sexo masculino). São cerca de cinco milhões de portuguesas que vivem na iminência de ter a doença e muitas de perder a mama. Para estas, há que dar esperança, há que mostrar que podem voltar a ter o corpo de sempre e, sobretudo, que vão poder manter-se confiantes, seguras, sensuais. Há que dar a todas a hipótese de fazer uma reconstrução mamária, com os devidos cuidados, explicando-lhes os desafios e processos.

“Sinto-me incompleta”, “não sou a mesma”, “toda a gente olha”, “não consigo ter uma relação sexual”, “tenho vergonha de me despir em frente ao meu marido”. Estas são algumas das frases que mais ouço na minha prática clínica, trabalhando com casos oncológicos cujo tratamento envolveu a excisão da mama (mastectomia). Estes pensamentos levam a paciente, frequentemente, para uma espiral de negatividade imensa, culminando, muitas vezes, em desmotivação e até depressões. É, por isso, importante intervir em tempo útil, mostrar-lhe que é reversível e que a doença não tem de ter uma marca para toda a vida. E cabe-nos não só a nós, médicos, como à família, amigos e sociedade em geral apoiar estas mulheres e dar-lhes a força que necessitam para mais este passo, que não deixa de ser mais um procedimento cirúrgico – vários, aliás, mas já lá vamos –, mas que é um procedimento com grandes mais-valias a médio/longo prazo, com benefícios para todos os que fazem parte da vida destas mulheres, pelo que vale totalmente a pena.

Idealmente, a reconstrução é efetuada de imediato, na altura da mastectomia (retirada da mama), mobilizando uma equipa multidisciplinar. Nem sempre é possível, depende do caso clínico e das características do tumor, mas sempre que possível é a opção que aconselho, para que a mulher não tenha de enfrentar a imagem do seu corpo desfeito (aos seus olhos) e evitar o estigma da amputação. Apesar de muito benéfica, a reconstrução mamária, não é, porém, um processo rápido e é preciso que a mulher esteja alerta para essa questão. É um esforço suplementar, que pode demorar até cerca de um ano e meio a ficar completamente concluído, decorrendo o processo, habitualmente, em três tempos operatórios: o processo arranca com a reconstrução da mama, que poderá ser feita em um ou dois momentos (um deles podendo ser feito durante a mastectomia); depois, segue-se a reconstrução do complexo areolo-mamilar e a simetrização da mama contralateral ao mesmo tempo que pode ser realizado algum refinamento estético na mama reconstruída, para conseguir uma maior simetria e equilíbrio entre ambas as mamas. As boas notícias: a maior parte dos casos decorrem sem grandes complicações e os resultados são, por norma, muito satisfatórios (casos em que seja necessária a realização de radioterapia, podem ser mais exigentes).

Aproveito ainda para referir que as reconstruções não são todas iguais. Além de poderem diferenciar-se nos tempos e número de intervenções, podem também ser dispares no tipo de operação realizada. E temos três tipos de intervenção, sendo a mais simples a reconstrução com introdução de implante mamário, que consiste na introdução de um implante à frente ou por baixo do músculo peitoral no mesmo tempo operatório em que é realizada a mastectomia. Temos também a reconstrução com expansão e posterior introdução de implante: é uma variação da técnica anterior, que utiliza o princípio da distensão de tecidos (da pele), sendo colocado um implante expansor (não definitivo) que, tal como um balão, vai sendo enchido em consulta até termos tecido suficiente para cobrir o implante que vamos utilizar para reconstruir a mama. Por último, e uma técnica mais complexa, para casos específicos, há também a reconstrução com retalhos musculo-cutâneos, em que são utilizados os tecidos da própria doente (mais frequentemente da barriga ou tecido das costas) para a reconstrução. Nestes casos, não é utilizado qualquer tipo de implante e a paciente fica com uma mama constituída apenas por tecido seu, evitando potenciais complicações de uma prótese. Pode também ser utilizada uma técnica mista que combina a utilização de tecidos da paciente com a introdução de um implante. O tipo de reconstrução é escolhido de acordo com o quadro clínico da paciente e de acordo com a sua vontade, sendo totalmente personalizado.

Sei que tudo isto pode parecer muito complexo e assustador até. Mas é de reforçar que a evolução da medicina e a formação constante dos médicos permite o uso de técnicas cada vez mais aperfeiçoadas, que diminuem cada vez mais os riscos e que trazem resultados cada vez mais satisfatórios, além de um evidente equilíbrio não só psicológico, mas também socio-psico-emocional, já que tem um grande impacto na perceção que a mulher tem de si, mas também na imagem que os outros têm da mulher e, sobretudo, na imagem que a mulher mastectomizada acha que os outros têm de si. É muito mais do que uma questão estética.

E sabiam que 7% dos casos abrangem mulheres abaixo dos 40 anos, mulheres com famílias para gerir, com filhos para educar? É verdade e é ainda mais alarmante, dado que estão no pico da sua vida, altura em que precisam de ainda mais energia e bem-estar.

Nunca é demais, por isso, lembrar a importância do autoexame e do rastreio. O autoexame não tem como objetivo diagnosticar doenças – claro –, mas é uma forma das mulheres estarem alerta a mudanças que possam surgir. É recomendável que todas façam este autoexame uma vez por mês, todos os meses, após o período menstrual. E que procurem o médico se perceberem que há alguma alteração na mama, seja em cor, irritação ou na palpação de um nódulo. É também expectável que a mulher visite o ginecologista uma a duas vezes por ano e que, a partir dos 40 anos (ou de acordo com as indicações do seu médico), faça uma mamografia. Em casos com antecedentes familiares de casos de cancro, o ideal será começar antes e com maior frequência. Estar alerta não evitará o aparecimento de uma situação oncológica, mas a brevidade com que a deteta será um fator de grande peso na sua luta e vitória.

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